Nós somos pássaros que
andam
Glicéria Tupinambá, Okará Assojaba, 2024 © Rafa Jacinto / Fundação Bienal de São Paulo
Glicéria Tupinambá, comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro
Okará Assojaba, 2024
Instalação composta por tarrafas, mantos com penas e cartas

Como liderar uma sociedade tupinambá? Como decidir as questões de ampliação territorial? Como liderar os plantios de alimentação e das roças? Como criar estratégias de luta ou guerra? Quais são as urgências da comunidade? Para os Tupinambá da Serra do Padeiro, Bahia, é necessário criar uma Okará, uma assembleia de escuta para debater essas e outras questões. Nesta obra estão reunidos os líderes que são portadores dos mantos: seis mulheres, quatro caciques e três pajés, formando assim uma instalação com treze partes que constituem um conselho de escuta tupinambá. A Okará é liderada por um manto feito de forma comunitária em 2024 a partir da aldeia da Serra do Padeiro, com parceiros e apoiadores da rede de relações da artista. As escutas se ampliam com a visita do Assojaba na Okará, um manto em movimento que também foi produzido pelas mãos da Glicéria com penas de pássaros de seu território, e que tem atuado como diplomata em instituições no Brasil e no mundo.

Em Okará Assojaba, Glicéria Tupinambá, em conjunto com a Associação dos Índios Tupinambá da Serra do Padeiro, enviou cartas às instituições que visitou em suas pesquisas de escuta da cultura material e ancestral de seu povo que estão em lugares como o Museum der Kulturen Basel (Basileia), Musées royaux d’Art et d’Histoire (Bruxelas) e Musée du quai Branly (Paris). Mais recentemente, em 2024, realizou sessões de escutas aos ancestrais da Ambrosiana – Pinacoteca Milano (Milão) e do Museo di Antropologia ed Etnografia (Florença). Essas cartas buscam acesso a uma história que foi deslocada e pertencem a um contexto histórico de relações das memórias das nações Tupinambá que estão distribuídas pela Europa.

Os encontros com os ancestrais nessas instituições permitiram que a artista percebesse que o manto ainda é presente em fazeres da comunidade. Desse modo, compreendeu sua missão em dar continuidade a essa técnica milenar. Os diálogos estabelecidos entre os mantos e a artista também possibilitaram a volta ainda este ano daquele que esteve no acervo do National Museum of Denmark (Copenhague) desde 1644.

Assistente e advogada Jessica Silva de Quadros Produtora Olga Torres Vídeos – Montagem e finalização Malassombro AV (Method_av) Imagens Jovens Atã, Method_av, Erick Lawrence, Magno Tupinambá Designer de som Aghata

Glicéria Tupinambá, Dobra do tempo infinito, 2024 © Rafa Jacinto / Fundação Bienal de São Paulo
Glicéria Tupinambá, Grupo Atã Tupinambá, comunidade Tupinambá da Serra do Padeiro
Dobra do tempo infinito, 2024
Videoinstalação composta por imagens das oficinas com a comunidade da Serra do Padeiro e Olivença, sementes, folhas, terra, redes de arrasto, jereré e samburá

As redes de arrasto, jererés e tarrafas são instrumentos da pesca e da alimentação. Para os Tupinambá da Serra do Padeiro, essas redes feitas com fios de nylon se conectam às técnicas de trama dos trajes e roupas tradicionais de seu povo. O cruzamento dos pontos das redes de pesca e das vestes dobra o tempo, conecta o passado e o presente, une gerações e fortalece os saberes tradicionais. Esse tempo que parece ser longínquo na verdade nos situa no presente para além do cronometrado, dos prazos e das datas de validade. Ele nos situa no tempo dos povos indígenas. Nessa obra, Glicéria mobilizou as comunidades da Serra do Padeiro e Olivença por meio de oficinas desenvolvidas por mestres para a produção de  canoas, redes de pesca, agulhas de tecer redes e encontros para pescaria com redes de arrasto e tarrafa. Os registros audiovisuais foram feitos  por jovens do Grupo Atã Tupinambá em colaboração com Augusto Santos (Method_av). Glicéria conectou os mestres da sua comunidade para dialogar com jovens adicionando mais um ponto na Dobra do tempo infinito.

Assistente e advogada Jessica Silva de Quadros Produtora Olga Torres Vídeos – Montagem e finalização Malassombro AV (Method_av) Imagens Jovens Atã, Method_av, Erick Lawrence, Magno Tupinambá Designer de som Aghata

Ziel Karapotó, Cardume, 2023–2024 © Rafa Jacinto / Fundação Bienal de São Paulo
Ziel Karapotó, comunidade Karapotó Terra Nova
Cardume, 2023–2024
Instalação composta por tarrafas, maracás, projéteis de munição e paisagem sonora

A instalação evoca a luta por territórios frente aos processos de genocídio, epistemícidio e ecocídio que se atualizam nos últimos 523 anos no Brasil. Cardume é uma metáfora para a resistência indígena, estes que foram tornados estrangeiros em seus territórios de origem, mas a obra sobretudo fala sobre a resistência indígena por meio da celebração da vida com as entoadas dos torés para firmar a espiritualidade e as redes de pesca que representam as correntezas de rios, mares e peixes. A obra conta com quatro elementos da obra: os cardumes de maracá (instrumento espiritual dos povos indígenas), cardumes de projéteis de armas de fogo, duas tarrafas (redes de pesca produzidas em conjunto com os familiares do artista) e paisagem sonora que une os sons de rios, torés (cantos tradicionais) e disparos de armas.

Assistentes / colaboradores Elvira Pereira dos Santos, Elenildo Suanã, Grupo de Toré Nhurae Badzé Karapotó Terra Nova, Leandro Gustavo Nascimento da Silva Som Ziel Karapotó Montagem e finalização Ziel Karapotó Captação de som Chico Torres, Fabio Cassiano, Janderson Felipe Designer de som Ziel Karapotó

Olinda Tupinambá, Equilíbrio, 2020–2024 © Rafa Jacinto / Fundação Bienal de São Paulo
Olinda Tupinambá, comunidade Pataxó Hãhãhãe – Terra Indígena Paraguaçu
Equilíbrio, 2020–2024
Videoinstalação composta por terra e sementes

Por meio do Projeto Kaapora (2016), Olinda Tupinambá e Samuel Wanderley propõem ações de reflorestamento, ativismo, educação, cinema indígena e soberania alimentar na Terra Indígena Caramuru. O curta-metragem retrata a condição humana no planeta Terra – esta que representa a mãe da humanidade, a mesma que gera a vida e que um dia a retomará, e novamente vai transformar essa energia em alimento para outros seres. Esse é o equilíbrio que permite a existência das espécies. Cuidar desse planeta interagindo de forma respeitosa com os outros seres vivos é uma das formas de nos tornarmos civilizados de fato. O discurso da Kaapora, uma entidade espiritual indígena, norteia a discussão crítica da relação destrutiva de nossa civilização com o único planeta com suporte para a vida, e do qual nós mesmos dependemos para continuar nossa existência enquanto espécie. A obra é um alerta do espírito das matas para a humanidade e nossas relações com o planeta.

Assistente Samuel Wanderley Produtora Olinda Tupinambá Vídeos – Montagem e finalização Olinda Tupinambá, Samuel Wanderley Imagens Samuel Wanderley Designer de som Samuel Wanderley